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Pirataria começa a decair

por Lucas Patricio

Por volta do meio-dia, dois homens conversavam em frente a uma pequena loja localizada no centro comercial de uma importante cidade paulista. Um deles, que estava acompanhando um garoto que vestia camisa vermelha e boné preto, apontou para a vitrine a e fez algumas perguntas. Do lado oposto do balcão de madeira, o outro respondeu com firmeza. “Esses jogos são idênticos aos originais, pode ficar tranquilo”. Enquanto isso, mais três atendentes faziam vendas. Era um dia cheio no pequeno box de aproximadamente 15m². Enquanto o garoto continuava olhando a vitrine, ao seu lado um jovem segurava uma grande sacola com sua última aquisição: um PlayStation.

Ao ver a nova aquisição do garoto ao lado, o menino de camisa vermelha perguntou ao homem que o acompanhava: “Pai, nós vamos comprar hoje, né?” Era preciso calma. Enquanto ainda tentava segurar a felicidade por estar adquirindo um dos presentes mais desejados de sua infância, o  garoto assistia hipnotizado à abertura de Parappa the Rapper, que rodava em uma televisão de 14 polegadas logo em cima do balcão.

O guri de camisa vermelha e boné era eu – mas podia ser você ou qualquer outro jovem na década de 90. Com apenas 10 anos de idade, mal tinha percebido que acabava de ter meu primeiro encontro com a pirataria. Alguns anos depois, estava sentado na sala de espera do meu curso de inglês e conversava com a secretária sobre a caixinha preta que guardava cuidadosamente dentro da minha pasta. “Os jogos originais são caros demais. Com o preço de um, compro 20 piratas”, argumentei. Com certeza você já ouviu esse papo antes, certo? Hoje, eu me perdoo. Não por ter comprado um Monster Rancher pirata para PSOne, mas pela desculpa dada. Na verdade, o preço dos jogos originais não era o problema principal. A verdade é que eu não tinha nenhum conhecimento sobre eles.


ORIGEM DE TUDO

E como era o mercado naquela época? “Há 15 anos, o mercado de games no Brasil não existia, era zero”, nos contou Leonardo Madruga, sócio da Rock Laser, empresa que está há 17 anos na indústria do entretenimento eletrônico. “Naquela época, só existia contrabando. Não tinha nenhum tipo de profissionalismo.”

A falta de conhecimento sobre jogos não era só minha, mas também de todos os jogadores e envolvidos com o mercado no Brasil – se é que podemos chamá-lo assim. O modelo de negócios praticado por aqui era o contrabando, a única forma de conseguir trazer os produtos para o país. Se os consoles chegavam por esse meio ilegal, o mercado paralelo nasceu para "sustentar" os consumidores.

Lembro-me que estava, ainda bem novo, esperando a aula começar no pátio da escola enquanto discutia com uma amiga sobre o PlayStation 2. “Já lançou no Japão, eles estão fazendo o terceiro!”, ela me contou. Naquela época, aliás, o Japão sempre estava dois PlayStations na nossa frente. Alguns anos depois, graças à internet, descobri que 95% das pessoas com que conversava sobre videogames não entendiam absolutamente nada sobre o assunto.

Mas uma das coisas que aquela colega me falou naquele dia fez sentido: “O próximo PlayStation não vai ter jogo pirata, só vai dar pra jogar original”. Não me lembro se ela falou sobre o PS3 ou PS2 (que, pasmem, ainda não tinha sido lançado nem no Japão naquela época!), mas aquela frase me acompanhou por um tempo.




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